As Trilogias do Cinema – O Senhor Dos Anéis: Parte I

Das trincheiras às mãos de um desconhecido, porém visionário diretor  de cinema neozelandês: a espera do momento certo para a adaptação de uma das maiores obras literárias do século XX

Antes de tudo, reverências são legítimas a uma das mais brilhantes mentes do século XX: O senhor J.R.R. Tolkien, homem que criou este universo paralelo em meio às trincheiras da Primeira Guerra Mundial e que só o finalizou no início da década de 1950. Tolkien revolucionou a literatura ao inventar povos, países, terras e várias línguas, em uma demonstração incomparável de criatividade e amor pelas ciências da linguagem.

Tamanho sucesso não poderia passar despercebido – e falando em sucesso, Os Beatles aconteceram. Na década de 1970 com a explosão do grupo de rock, aliado a efervescência da indústria de Hollywood, fez com que alguns produtores tentassem levar os “garotos de Liverpool” para as telonas na adaptação da obra maior de Tolkien, usando seus status absolutos de celebridades, desempenhando os principais personagens da Terra Média. Tão sábia quanto à decisão de não colocar esse projeto para frente, foi a imediata negativa do próprio autor ao mesmo. O projeto, por décadas, ficou engavetado.

Então, daqui por diante, sejamos objetivos em nossa maneira de pensar: estamos falando de uma adaptação baseada em três volumosos livros que se passam em outro mundo, com outras línguas e outros seres. Ou seja, riqueza para desenvolver essa tal adaptação não faltava. A verdade era que o mundo ainda era carente, tecnologicamente falando e toda aquela grandeza da Terra Média merecia ser exposta de maneira plena, não era trabalho para se lançar sob a sombra das décadas subsequentes aos Beatles.

Foi, então, que chegamos à era dos computadores. Agora, o que restava era uma pessoa que tivesse feito o “dever de casa” e surgisse com algo concreto a ser desenvolvido. Peter Jackson, um diretor neozelandês (de pouco sucesso para a época), havia revelado, após o sucesso que alcançou com sua trilogia, que depois de ler os livros de Tolkien, quando era criança, ficou ansioso para que aquilo, um dia, se transformasse em filme – e eu acredito que é exatamente nestes pontos que as grandes produções devem se ater, em alguém que não só deposite dinheiro para um fim, mas, também, o coração no que faz, afinal, nada mais justo do que ter um filme com toda a exuberância que os livros possuem, assim como o desenvolvimento satisfatório que conseguisse fazer aparecer a Terra Média e todo o seu universo fantasioso.

A hora chegou e, apesar da longa espera, esqueça tudo o que você ouviu sobre efeitos especiais e técnicas cinematográficas que ajudaram a tornar este universo ainda mais fascinante, com a devida licença àqueles que marcaram época. Alguns deles contribuíram para o cinema das maneiras mais positivas possíveis, foi assim com Ben-Hur (1958), Star Wars (1977), Jurassic Park (1993) e Titanic (1997), cada qual em sua década. Contudo, até o atual momento do cinema, nada se compara a chamada “técnica de capitação de movimentos” desenvolvida pela empresa neozelandesa Weta Digital. A empresa do Sr. Richard Taylor (fundada em 1987) chegou para mudar a indústria do cinema e transformar a poderosa Hollywood, já que aquilo era o futuro.

E, enfim, fomos presenteados com A Sociedade do Anel, primeiro capítulo da saga. Tão logo o filme começa, já somos completamente tomados pelo mundo da Terra Média com toda a sua beleza estética e seu prólogo inesquecível narrado pela elfa Galadriel (Cate Blanchett) – aliás, uma das mais acertadas cartadas do diretor Peter Jackson foi começar todos os capítulos com prólogos marcantes, convertendo estes ao status de uma das melhores cenas de cada um deles. O sentimento de ser imerso ao filme e ao seu ambiente é, até hoje, aos olhos desse que vos fala, algo raro de se testemunhar.

Rico em todos os sentidos, a produção causou verdadeiro estardalhaço em Hollywood, “abocanhou” (de maneira surpreendente, mas jamais injusta) dezenas de prêmios na temporada de ouro de 2002. O destaque maior foi a expressiva marca de 13 indicações ao Oscar de 2002, levando 4 estatuetas (Melhor Trilha Sonora, Melhor Fotografia, Melhor Efeitos Visuais e Melhor Maquiagem), embora fosse mais que justa se sua consagração tivesse ocorrido em categorias de ponta como Roteiro Adaptado (escrito pelo próprio Jackson, com o auxílio da esposa Fran Walsh e da amiga Philippa Boyens), Direção e Filme do Ano, assim como ocorreu nos prêmios da Academia Britânica (Bafta Awards), quando venceu nas categorias de Melhor Filme e Melhor Diretor (além de Efeitos Especiais e Maquiagem).

A Sociedade do Anel detém, até hoje, um fato indiscutível dentro da história: foi um divisor de águas em Hollywood, pois inovou nas diversas áreas das técnicas de produção, aliada a uma direção segura e surpreendente desenvolvida por um senhor pouco conhecido e desacreditado (muito disso por força de sua aparência “desleixada”), mas que deixou o resultado final ainda mais satisfatório e esperançoso para os antigos e os novos fãs na espera pelo lançamento dos capítulos posteriores. O fato de Peter Jackson ter tomado a frente da produção e direção do ousado projeto, elevou ainda mais seu status na comunidade cinematográfica, pois conseguiu lançar um filme de fantasia aos mais altos postos de qualidade e de satisfação, do ponto de vista dos críticos, das premiações e, especialmente, dos fãs.

Com um roteiro empolgante, inteligente e, muitas vezes cômico, onde somos apresentados aos mais nobres personagens que lutam pelo fim de um mal silencioso (e que deixa um gostinho de “quero mais” bastante latente para o público), outro adjetivo não me vem à cabeça senão dizer que, ao final de A Sociedade do Anel, o sentimento é de ter testemunhado uma verdadeira obra prima do cinema moderno e, talvez, uma das mais impecáveis de sua história. Sorte de quem teve essa chance dentro de uma sala de cinema em pleno dia 1º de janeiro de 2002, quando filme estreou aqui no Brasil.

Continuaremos com a Parte II.

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